terça-feira, fevereiro 27, 2007

A Essência do Actor

A arte é talvez a mais genuina forma de expressão do ser humano, e o Teatro não é excepção. Não será necessário recuar à Grécia Antiga para reconhecer no Teatro uma via de os autores darem voz à sua indignação. Num passado recente, Gil Vicente, por exemplo, através dos seus Autos e Farsas apontava o dedo de formas mais ou menos discretas às imperfeições da sociedade da época.
Na actualidade, o Teatro tem ainda essa função de manifestação de desagrado, como é o caso do Teatro de Revista que tem indiscutivelmente na sua base a crítica da sociedade actual.
O Teatro poderá ainda ser encarado como um caminho para atingir formas superiores de liberdade, liberdade essa que nos dá o poder de rivalizar o com divino, na medidade em que o dramaturgo e o actor encontram na escrita cénica e na representação, respectivamente, o poder que só Deus possui: CRIAR.
O dramaturgo tem a possibilidade de criar novas realidades que não a sua, novos mundos imaginários nos quais se movimentam personagens com personalidades próprias e com fragilidades e virtudes como se de seres reais se tratassem. No entanto, é ao actor que cabe dar o "sopro" final que traz à vida as personagens. É o actor que as liberta da prisão do papel e lhes dá alma própria, confere-lhes a oportunidade de se indignarem e manifestarem, dando voz ao seu desconsolo. Tem o poder de tornar reais os mundos imaginários criados pelo dramaturgo.
Neste processo, o actor não se limita a emprestar o corpo à personagem como nós, leigos, tantas vezes imaginamos. Não. Um actor só é actor se tiver a capacidade de experimentar um processo de metamorfose pelo qual esquece o seu Eu e assume ele própeio a identidade da personagem, partilhando os seus medos e angústias. Deixa-se invadir por emoções que não são suas, mas que subitamente passam a ser.
É talvez aqui que reside a diferença entre o actor e o mero cidadão comum. A maioria dos seres humanos nasce e vive toda a sua existência de igual forma, condicionado por rotinas e hábitos definidos. Poderá eventualmente questionar-se a proprósito do sentido da sua vida, se é ou não feliz, mas contenta-se em viver apenas a existência que Deus lhe concedeu. O actor não! O actor é talvez um ser inconformado que se recusa a aceitar a terrível monotonia que é viver ano após ano, década atrás de década com a mesma alma.
Assim, o Teatro dá ao actor a oportunidade de vencer os seus próprios limites, e poder ser, na mesma noite, mil e uma pessoas diferentes. "O actor é essa pessoa gigante e frágil, porque se calhar tem várias almas ou nemnhuma" (Bruno Schiappa).
Sob o foco das luzes, o actor vê-se por vezes perante determinadas situações pelas quais nunca passara no seu dia-a-dia, experimentando emoções tão intensas e tão diversificadas que ele próprio desconhecia. Nesta prespectiva, o palco pode igualmente ser encarado como um local de auto-conhecimento.
Novas artes têm surgido, nomeadamente a televisão e o cine,ma. No entanto, na minha humilde opinião, o Teatro continua a ser a arte de representar mais autêntica e mais prõxima do espectador. Em televisão ou em cinema, tudo soa a falso: o actor limita-se a representar para uma câmara, para um público que sabe estar lá, mas que não vê, não reage. Pelo contrário, em palco o actor tem oportunidade de enfrentar o público, de ver as suas caras. Toma percepção das suas reacções e emoções naquele preciso momento. É este pacto de sinceridade e de transparência que se estabelece entre o actor e o espectador, que confere ao Teatro toda a magia que ele efectivamente possui.
Em suma, caso não me tenha expressado da forma mais clara possível, é esta paixão pelas luzes, pelo público e pelas tábuas do palco que dá sentido à minha vida e, me dá alento em cada acordar para enfrentar todas as agruras do dia-a-dia.

1 comentário:

Ana Figueiredo disse...
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